A CANTINHO


Ernâni Getirana


Como toda moça de família abastada do interior naquela época, Doca era uma menina muito religiosa e trabalhadora. Fôra batizada, crismada, tivera a primeira eucaristia rodeada por toda a família.  Morava na Cantinho, uma fazendinha que ganhara esse nome de seu bisavô materno, lá ela era muito feliz, obrigado. Os pais tiveram o cuidado para que ela aprendesse a ler, escrever e contar. Não à toa Doca possuía um diário no qual, vez ou outra, brotavam até uns poemas.

A fazendinha tinha coisa de uns 200 hectares, ‘uma coisinha de nada se comparada às fazendas de seu Milton Brandão’, ele, o bisavô, dizia. Mas Doca até que achava aquilo tudo até grande. E essa impressão ficava bem clara na cabeça da moça quando, por exemplo, ela acompanhava o pai e irmãos na ‘mudança do arame farpado’ das cercas da fazendinha, de tempos em tempos. ‘Vocês acham a nossa propriedade grande? Pois fiquem sabendo que grandona mesmo são as do deputado Milton. Tem uma que a pessoa de carro entra às seis horas da manhã e andando sem parar, sai do outro lado pra mais de seis horas da noite. E tudo isso por uma estradinha boa de se ver, feita decretada pelo pessoal do DNOCS’.

 

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